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Reforma 1517
Reforma 1517

Antes de 1517, uma cristandade em tensão

A Reforma não surgiu do nada. Fé intensa, críticas antigas, interesses políticos, novas ideias e uma tecnologia recente se encontraram no início do século XVI.

O cenário

Uma Europa entre a Idade Média e a Idade Moderna

Por volta de 1500, a Europa ocidental reunia reinos em consolidação, como França, Inglaterra e os reinos ibéricos, e regiões politicamente fragmentadas, como o Sacro Império Romano-Germânico e a península Itálica.

As cidades cresciam, o comércio se ampliava e as viagens atlânticas abriam novos horizontes. Ao leste, o avanço do Império Otomano preocupava governantes e pregadores.

A palavra “Idade Média” é uma invenção posterior. Para quem vivia em 1517, não havia uma ruptura clara: muitas instituições medievais continuaram por séculos.

Mapa ilustrativo da Europa Central e Ocidental no século XVILitoral simplificado com 19 cidades marcadas. A lista completa, com a explicação de cada local, aparece logo abaixo do mapa.Sacro ImpérioFrançaInglaterraEstadositalianosHungriaWittenbergLeipzigEislebenWartburgWormsNurembergAugsburgoEstrasburgoBasileiaConstançaZuriqueGenebraTrentoRomaPragaOxfordLondresParisMünster
Mapa ilustrativo elaborado para este site a partir de dados de litoral do Natural Earth (domínio público). As fronteiras políticas foram omitidas de propósito: as atuais seriam anacrônicas e as de 1517 eram fragmentadas e mutáveis.

Centros reformadores

  • Wittenberg: Universidade de Lutero e Melanchthon; as 95 Teses (1517).
  • Estrasburgo: Cidade de Martin Bucer; refúgio de Calvino (1538–1541).
  • Basileia: Imprensa de Froben; Novo Testamento grego de Erasmo (1516); Institutas (1536).
  • Zurique: Reforma de Zuínglio e primeiros anabatistas (1519–1525).
  • Genebra: Igreja e Academia de Calvino.

Dietas, debates, concílios e episódios

  • Leipzig: Debate entre Lutero, Karlstadt e Eck (1519).
  • Wartburg: Castelo onde Lutero traduziu o Novo Testamento (1521–1522).
  • Worms: Dieta de Worms (1521); impressão do Novo Testamento de Tyndale (1526).
  • Augsburgo: Confissão de Augsburgo (1530) e Paz de Augsburgo (1555).
  • Constança: Concílio que condenou Jan Hus (1415).
  • Trento: Concílio de Trento (1545–1563).
  • Londres: Ato de Supremacia de Henrique VIII (1534).
  • Münster: Reino anabatista radical (1534–1535).

Antecedentes e outros marcos

  • Eisleben: Nascimento (1483) e morte (1546) de Lutero.
  • Nuremberg: Grande centro de impressão; uma das edições das teses de 1517.
  • Roma: Sede do papado; reconstrução da Basílica de São Pedro.
  • Praga: Pregação de Jan Hus e movimento hussita.
  • Oxford: Universidade de John Wycliffe (século XIV).
  • Paris: Universidade onde Calvino estudou; centro da teologia católica.

A Igreja

Uma Igreja poderosa — e longe de ser homogênea

O papado liderava a cristandade latina, mas sua autoridade convivia com bispos poderosos, ordens religiosas, universidades e governantes. No século anterior, concílios como o de Constança (1414–1418) chegaram a afirmar autoridade sobre os papas para encerrar um cisma.

Críticas a abusos eram antigas: bispos que acumulavam dioceses e não residiam nelas, cargos obtidos por dinheiro, clérigos mal formados. Os papas do Renascimento, como Alexandre VI, Júlio II e Leão X, foram também príncipes e mecenas, envolvidos em guerras e grandes obras.

Ao mesmo tempo, a devoção era intensa e criativa: confrarias, peregrinações, leitura devocional, a devotio moderna nos Países Baixos, movimentos de reforma nas ordens religiosas e iniciativas como a do cardeal Cisneros na Espanha, que patrocinou a Bíblia Poliglota Complutense. O V Concílio de Latrão (1512–1517) discutiu reformas pouco antes das teses de Lutero.

Religião, sociedade e poder

Quem dependia de quem

Religião e política não eram esferas separadas. O diagrama resume as relações que a Reforma reorganizaria.

Papado e Igreja

Bispos, paróquias, mosteiros, universidades e tribunais eclesiásticos formavam uma rede presente em toda a cristandade latina.

Imperador, reis e príncipes

Disputavam com Roma a nomeação de bispos, impostos e jurisdição. No Sacro Império, o poder estava repartido entre centenas de senhores.

Cidades e universidades

Conselhos municipais, mercadores e professores tinham autonomia crescente e eram leitores ávidos de impressos.

Fiéis

Camponeses, artesãos e nobres viviam uma religião de missas, festas, peregrinações, confrarias e preocupação com a salvação.

Relações principais

  • Igreja → Fiéis: sacramentos, pregação, indulgências e cobrança de dízimos.
  • Governantes → Igreja: proteção, mas também disputa por cargos, bens e tributos enviados a Roma.
  • Cidades → Igreja: fundação de pregações, controle de hospitais e escolas, queixas contra privilégios do clero.
  • Fiéis → Governantes: obrigações senhoriais, revoltas camponesas e expectativas de justiça.

Nas dietas do Império, os estados alemães apresentavam havia décadas listas de queixas contra Roma — as chamadas gravamina — sobre impostos, nomeações e tribunais eclesiásticos. Muitos governantes viram na Reforma uma chance de controlar suas igrejas; outros, de defender a ordem católica.

A controvérsia

O que eram, afinal, as indulgências

Na doutrina medieval, o pecado tinha culpa e pena. A culpa era perdoada no sacramento da , após arrependimento e confissão; restava uma pena temporal, a ser cumprida com obras de satisfação nesta vida ou no .

A indulgência remitia essa pena, com base no de Cristo e dos santos administrado pela Igreja. Em 1476, o papa Sisto IV estendeu sua aplicação às almas do purgatório, por modo de intercessão.

Para obtê-la, pedia-se arrependimento, confissão e uma obra prescrita — muitas vezes uma doação. Na prática, pregadores exageravam promessas e muita gente entendia que comprava o perdão. Erasmo e outros críticos católicos já denunciavam esses abusos antes de Lutero.

Simplificação comum × entendimento histórico

“Comprava-se o perdão dos pecados.”
Oficialmente, a indulgência não perdoava a culpa, apenas a pena temporal de pecados já perdoados. A confusão popular, porém, era real — e foi justamente o que Lutero criticou.
“A Igreja inteira vivia disso.”
Indulgências eram uma fonte importante de recursos para obras e cruzadas, mas a vida religiosa era muito mais ampla. Curiosamente, cartas de indulgência estão entre os primeiros impressos de Mainz, de 1454.

As ideias

Às fontes: humanistas e reformadores anteriores

O e os movimentos de reforma dos séculos XIV e XV prepararam perguntas que Lutero e outros fariam com nova força.
Retrato histórico de Erasmo de Roterdã
Retrato de Erasmo de Roterdã. Hans Holbein, o Jovem, 1523. Domínio público, via Wikimedia Commons. Ver fonte no Wikimedia Commons (abre em nova aba)

Humanismo

Humanistas estudavam grego e hebraico para ler as fontes originais. Lorenzo Valla demonstrou, por volta de 1440, que a “Doação de Constantino” era falsa. Erasmo publicou o Novo Testamento grego em 1516.

Representação histórica de John Wycliffe
John Wycliffe. Thomas Kirkby, c. 1828. Domínio público, via Wikimedia Commons. Ver fonte no Wikimedia Commons (abre em nova aba)

John Wycliffe

Em Oxford, no século XIV, defendeu a autoridade das Escrituras e criticou o poder temporal do clero. Seus seguidores traduziram a Bíblia para o inglês em manuscritos.

Representação histórica de Jan Hus
Jan Hus (gravura). Christoph Murer, segundo o Commons, 1587. Domínio público, via Wikimedia Commons. Ver fonte no Wikimedia Commons (abre em nova aba)

Jan Hus

Pregador em Praga, foi executado em Constança em 1415. Na Boêmia, os hussitas conquistaram, entre outras coisas, a comunhão com pão e vinho para os leigos.

Exemplar da Bíblia de Gutenberg, a cópia Lenox, na Biblioteca Pública de Nova York
Bíblia de Gutenberg, exemplar Lenox (Biblioteca Pública de Nova York). Fotografia de Kevin Eng (NYC Wanderer), 2009 (fotografia). CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons. Ver fonte no Wikimedia Commons (abre em nova aba)

A imprensa

Desde meados do século XV, a impressão com tipos móveis se espalhou pela Europa. Em 1517, já existia uma rede de impressores capaz de reproduzir textos em dias.

Outros movimentos, como os valdenses, surgidos no século XII, e o pregador florentino Girolamo Savonarola, executado em 1498, também mostram que críticas à Igreja e desejos de renovação já existiam. Chamar todos eles de “precursores” é uma leitura feita depois: cada um tinha objetivos próprios.

Os lugares

Universidades, cidades e governantes

Universidades

Eram o espaço do debate teológico. Wittenberg, fundada em 1502, competia com Leipzig e Erfurt e ganhou fama com Lutero e Melanchthon.

Cidades

Cidades imperiais como Nuremberg, Estrasburgo e Zurique tinham conselhos que decidiam sobre pregadores, escolas e assistência — e muitas adotaram a Reforma por decisão municipal.

Governantes

A proteção de Frederico, o Sábio, foi decisiva para Lutero. Sem príncipes e cidades dispostos a apoiá-los, a maioria dos reformadores teria tido o destino de Hus.