
Humanismo
Humanistas estudavam grego e hebraico para ler as fontes originais. Lorenzo Valla demonstrou, por volta de 1440, que a “Doação de Constantino” era falsa. Erasmo publicou o Novo Testamento grego em 1516.
O cenário
Por volta de 1500, a Europa ocidental reunia reinos em consolidação, como França, Inglaterra e os reinos ibéricos, e regiões politicamente fragmentadas, como o Sacro Império Romano-Germânico e a península Itálica.
As cidades cresciam, o comércio se ampliava e as viagens atlânticas abriam novos horizontes. Ao leste, o avanço do Império Otomano preocupava governantes e pregadores.
A palavra “Idade Média” é uma invenção posterior. Para quem vivia em 1517, não havia uma ruptura clara: muitas instituições medievais continuaram por séculos.
A Igreja
O papado liderava a cristandade latina, mas sua autoridade convivia com bispos poderosos, ordens religiosas, universidades e governantes. No século anterior, concílios como o de Constança (1414–1418) chegaram a afirmar autoridade sobre os papas para encerrar um cisma.
Críticas a abusos eram antigas: bispos que acumulavam dioceses e não residiam nelas, cargos obtidos por dinheiro, clérigos mal formados. Os papas do Renascimento, como Alexandre VI, Júlio II e Leão X, foram também príncipes e mecenas, envolvidos em guerras e grandes obras.
Ao mesmo tempo, a devoção era intensa e criativa: confrarias, peregrinações, leitura devocional, a devotio moderna nos Países Baixos, movimentos de reforma nas ordens religiosas e iniciativas como a do cardeal Cisneros na Espanha, que patrocinou a Bíblia Poliglota Complutense. O V Concílio de Latrão (1512–1517) discutiu reformas pouco antes das teses de Lutero.
Religião, sociedade e poder
Bispos, paróquias, mosteiros, universidades e tribunais eclesiásticos formavam uma rede presente em toda a cristandade latina.
Disputavam com Roma a nomeação de bispos, impostos e jurisdição. No Sacro Império, o poder estava repartido entre centenas de senhores.
Conselhos municipais, mercadores e professores tinham autonomia crescente e eram leitores ávidos de impressos.
Camponeses, artesãos e nobres viviam uma religião de missas, festas, peregrinações, confrarias e preocupação com a salvação.
Nas dietas do Império, os estados alemães apresentavam havia décadas listas de queixas contra Roma — as chamadas gravamina — sobre impostos, nomeações e tribunais eclesiásticos. Muitos governantes viram na Reforma uma chance de controlar suas igrejas; outros, de defender a ordem católica.
A controvérsia
Na doutrina medieval, o pecado tinha culpa e pena. A culpa era perdoada no sacramento da , após arrependimento e confissão; restava uma pena temporal, a ser cumprida com obras de satisfação nesta vida ou no .
A indulgência remitia essa pena, com base no de Cristo e dos santos administrado pela Igreja. Em 1476, o papa Sisto IV estendeu sua aplicação às almas do purgatório, por modo de intercessão.
Para obtê-la, pedia-se arrependimento, confissão e uma obra prescrita — muitas vezes uma doação. Na prática, pregadores exageravam promessas e muita gente entendia que comprava o perdão. Erasmo e outros críticos católicos já denunciavam esses abusos antes de Lutero.
Simplificação comum × entendimento histórico
As ideias

Humanistas estudavam grego e hebraico para ler as fontes originais. Lorenzo Valla demonstrou, por volta de 1440, que a “Doação de Constantino” era falsa. Erasmo publicou o Novo Testamento grego em 1516.

Em Oxford, no século XIV, defendeu a autoridade das Escrituras e criticou o poder temporal do clero. Seus seguidores traduziram a Bíblia para o inglês em manuscritos.

Pregador em Praga, foi executado em Constança em 1415. Na Boêmia, os hussitas conquistaram, entre outras coisas, a comunhão com pão e vinho para os leigos.

Desde meados do século XV, a impressão com tipos móveis se espalhou pela Europa. Em 1517, já existia uma rede de impressores capaz de reproduzir textos em dias.
Outros movimentos, como os valdenses, surgidos no século XII, e o pregador florentino Girolamo Savonarola, executado em 1498, também mostram que críticas à Igreja e desejos de renovação já existiam. Chamar todos eles de “precursores” é uma leitura feita depois: cada um tinha objetivos próprios.
Os lugares
Eram o espaço do debate teológico. Wittenberg, fundada em 1502, competia com Leipzig e Erfurt e ganhou fama com Lutero e Melanchthon.
Cidades imperiais como Nuremberg, Estrasburgo e Zurique tinham conselhos que decidiam sobre pregadores, escolas e assistência — e muitas adotaram a Reforma por decisão municipal.
A proteção de Frederico, o Sábio, foi decisiva para Lutero. Sem príncipes e cidades dispostos a apoiá-los, a maioria dos reformadores teria tido o destino de Hus.