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Reforma 1517
Reforma 1517

31 de outubro, mais que uma data

Uma carta, um debate acadêmico e uma porta de igreja que se tornou símbolo. A história do Dia da Reforma — separando o que as fontes mostram do que a memória acrescentou.
Pintura do século XIX que representa Lutero afixando as teses na porta de uma igreja
A afixação das teses segundo Julius HübnerLutero afixa as 95 Teses. Julius Hübner, 1878. Domínio público, via Wikimedia Commons. Ver fonte no Wikimedia Commons (abre em nova aba)

O contexto

Wittenberg, outono de 1517

Martinho Lutero tinha 33 anos. Frade agostiniano, era doutor em teologia e professor de Bíblia na jovem Universidade de Wittenberg, fundada em 1502 pelo eleitor Frederico III, o Sábio.

Naquele ano, o frade dominicano Johann Tetzel pregava uma concedida pelo papa Leão X para a reconstrução da Basílica de São Pedro, em Roma. No território de Alberto de Brandemburgo, arcebispo de Mainz e de Magdeburgo, metade da arrecadação ajudaria a pagar as dívidas contraídas com os banqueiros Fugger para obter a dispensa papal que lhe permitia acumular cargos.

Frederico, o Sábio, não permitiu essa pregação na Saxônia eleitoral — ele tinha sua própria coleção de relíquias e indulgências ligadas à Igreja do Castelo. Mas moradores de Wittenberg cruzavam a fronteira para comprar as cartas de indulgência nas cidades vizinhas, e Lutero ouvia, no confessionário, pessoas convencidas de que não precisavam mais se arrepender.

O documento

A carta ao arcebispo e as 95 Teses

Em 31 de outubro de 1517, véspera da festa de Todos os Santos, Lutero escreveu ao arcebispo Alberto. Pedia que ele corrigisse as instruções dadas aos pregadores e anexava uma série de teses em latim, redigidas para uma sobre o poder das indulgências.

As teses não eram um programa completo de doutrina. Lutero ainda reconhecia a autoridade do papa e criticava sobretudo os excessos da pregação. Mas perguntas como a da tese 86 — por que o papa não construía a basílica com o próprio dinheiro — tocavam em temas sensíveis: dinheiro, poder e salvação.

O arcebispo encaminhou o material a Roma. A disputa pública nunca chegou a acontecer em Wittenberg, mas os impressores fizeram o que o debate acadêmico não fez: levaram as teses a leitores de todo o Império.

A porta da igreja

O martelo, a porta e as fontes

A cena mais conhecida da Reforma é também uma das mais discutidas. Eis como as evidências se distribuem.
Grau de evidência: Documentado

O que está documentado

  • A carta de Lutero ao arcebispo Alberto de Mainz, datada de 31 de outubro de 1517, acompanhada das teses.
  • Lutero enviou as teses também ao bispo de sua diocese, Jerônimo Schulz, de Brandemburgo.
  • Ainda em 1517, as teses foram impressas em Nuremberg, Leipzig e Basileia; uma tradução alemã circulou logo depois.
  • A Igreja do Castelo servia à universidade, e era costume afixar avisos acadêmicos nas portas das igrejas de Wittenberg.
Grau de evidência: Debatido

O que historiadores debatem

  • Se as teses foram de fato afixadas na porta, e em que dia. Em 1961, o historiador católico Erwin Iserloh argumentou que a afixação não ocorreu como contada.
  • Lutero, nos textos conhecidos, não descreve ter afixado as teses. O primeiro relato impresso é de Filipe Melanchthon, em 1546 — e ele só chegou a Wittenberg em 1518.
  • Uma nota manuscrita de Georg Rörer, assistente de Lutero, escrita por volta de 1540 num Novo Testamento hoje em Jena, registra que as teses foram tornadas públicas nas portas das igrejas de Wittenberg na véspera de Todos os Santos.
Grau de evidência: Tradição

O que vem da tradição

  • A imagem de um Lutero desafiador, martelando as teses diante de uma multidão, consolidou-se em gravuras comemorativas e, sobretudo, em pinturas do século XIX.
  • A ideia de que aquele gesto, por si só, “iniciou” a Reforma. Os contemporâneos viram um debate acadêmico que cresceu aos poucos.
Na véspera de Todos os Santos de 1517, as teses sobre as indulgências foram tornadas públicas nas portas das igrejas de Wittenberg.
Georg Rörer, nota manuscrita em um Novo Testamento de 1540 (Biblioteca da Universidade de Jena)Paráfrase em português do conteúdo da nota latina, não tradução literal.

Muitos historiadores hoje consideram plausível que as teses tenham sido afixadas, como era o costume acadêmico — provavelmente sem martelo, sem multidão e sem a intenção de iniciar uma revolução. O que é certo é a carta de 31 de outubro e a rápida difusão impressa.

As portas originais da Igreja do Castelo foram destruídas num incêndio em 1760. As atuais, de bronze, com o texto latino das teses, foram instaladas em 1858.

A memória

Como a data virou celebração

Durante o século XVI, luteranos lembraram a Reforma em várias datas, como o aniversário de Lutero ou a Confissão de Augsburgo. O 31 de outubro se firmou com os jubileus.
A Rosa de Lutero, selo que ele descreveu em carta de 1530: cruz negra num coração vermelho, dentro de uma rosa branca, sobre fundo azul, com anel dourado. Tornou-se emblema de igrejas luteranas.
  1. 1617

    A faculdade de teologia de Wittenberg propõe o primeiro jubileu; o eleitor da Saxônia fixa celebrações em 31 de outubro e 2 de novembro.

  2. 1667

    A Saxônia torna 31 de outubro um dia anual da Reforma. Outras igrejas territoriais alemãs seguem, aos poucos, a mesma data ou o domingo mais próximo.

  3. 1817

    No tricentenário, o rei Frederico Guilherme III da Prússia promove a união de igrejas luteranas e reformadas em seu reino.

  4. 2016

    Em Lund, na Suécia, a Federação Luterana Mundial e o papa Francisco abrem juntos a comemoração dos 500 anos. No Brasil, a Lei nº 13.246 institui o Dia Nacional da Proclamação do Evangelho em 31 de outubro.

  5. 2017

    Nos 500 anos, 31 de outubro é feriado nacional na Alemanha. A partir de 2018, quatro estados do norte adotam a data, que passa a ser feriado em nove estados alemães.

Nas igrejas luteranas

Cultos especiais no dia 31 ou no domingo anterior, o Domingo da Reforma, com hinos como Castelo forte.

Em outras tradições protestantes

Igrejas reformadas, presbiterianas, batistas e evangélicas em geral também marcam a data com cultos, palestras e celebrações — com ênfases teológicas diferentes.

Em diálogo ecumênico

Desde os 500 anos, parte das comemorações passou a incluir católicos, lembrando a Reforma também como ferida da divisão cristã.

31 de outubro também é véspera do Dia de Todos os Santos — a mesma festa que dá nome ao Halloween (All Hallows’ Eve). A coincidência é de calendário: Lutero escreveu às vésperas de uma festa em que a Igreja do Castelo expunha relíquias e atraía peregrinos.