Pular para o conteúdo
Reforma 1517
Reforma 1517

Uma Reforma, séculos de consequências

O que mudou na Europa — e além dela — depois de 1517? Muito. Mas quase nada mudou por uma única causa, e nem tudo mudou para melhor.

Causas e consequências

Por que a Reforma se espalhou

A Reforma participou de transformações profundas, mas raramente foi a única causa. Cada área abaixo indica o que mudou, onde a relação histórica é concreta e quais são os limites dessa explicação.
  1. Crise religiosa

    Insatisfação com abusos do clero, ansiedade sobre a salvação e debates sobre indulgências, que já existiam antes de 1517.

  2. Humanismo

    Estudo das fontes em grego e hebraico, edições críticas da Bíblia e crítica à teologia escolástica.

  3. Imprensa

    Panfletos baratos em língua vernácula e gravuras levaram o debate para fora das universidades.

  4. Interesses políticos

    Príncipes e cidades viram na Reforma uma chance de controlar suas igrejas, bens eclesiásticos e autonomia diante do imperador.

Um debate acadêmico se torna movimento religioso e político

Nenhum fator bastaria sozinho: a crítica religiosa precisou da imprensa para circular e de governantes para sobreviver.

Área 1 de 7

Religião

Do debate às igrejas: o cristianismo ocidental se tornou plural.

Pintura que representa uma sessão do Concílio de Trento
O Concílio de TrentoO Concílio de Trento (pintura do Museo del Buonconsiglio, Trento). Fotografia de Laurom, 2009 (fotografia). CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons. Ver fonte no Wikimedia Commons (abre em nova aba)
  • Novas tradições

    Surgiram igrejas luteranas, reformadas, anglicanas e comunidades anabatistas, com confissões de fé, liturgias e formas de governo distintas.

  • Mudanças no culto

    Cultos em língua vernácula, pregação no centro, cânticos da congregação, comunhão com pão e vinho para os leigos e casamento de pastores.

  • Respostas católicas

    O Concílio de Trento definiu doutrinas e reformou a formação do clero; ordens como a Companhia de Jesus, aprovada em 1540, impulsionaram educação e missões.

Limites desta explicação e fontes

Reformas dentro da Igreja Católica já estavam em curso antes de 1517 e seguiram dinâmica própria; não foram apenas reação aos protestantes.

Área 2 de 7

Educação

Se cada cristão deveria conhecer a Bíblia e o catecismo, era preciso ensinar a ler.

Exemplar histórico da Bíblia traduzida por Lutero
A Bíblia de LuteroExemplar histórico da Bíblia de Lutero. Fotografia de Torsten Schleese, 1999 (fotografia). Domínio público, via Wikimedia Commons. Ver fonte no Wikimedia Commons (abre em nova aba)
  • Escolas municipais

    Em 1524, Lutero exortou os conselhos das cidades alemãs a criar e manter escolas cristãs. Ordenanças eclesiásticas passaram a prever escolas, inclusive para meninas em alguns lugares.

  • Catecismos e universidades

    Os catecismos de 1529 foram pensados para o ensino em casa. Marburgo (1527) foi a primeira universidade fundada como protestante; a Academia de Genebra (1559) formou pastores para várias nações.

  • Concorrência educacional

    Colégios jesuítas e escolas protestantes disputaram a formação das elites, ampliando a oferta de ensino em regiões católicas e protestantes.

Limites desta explicação e fontes

A alfabetização já crescia nas cidades antes da Reforma e continuou desigual por séculos, conforme região, gênero e classe. Historiadores debatem quanto dela se deve ao fator religioso.

Área 3 de 7

Comunicação

A primeira controvérsia europeia vivida em panfletos.

Gravura de uma oficina tipográfica com trabalhadores operando uma prensa e compondo tipos
Uma oficina tipográfica do século XVIO impressor, do Livro dos Ofícios (Ständebuch). Jost Amman, 1568. Domínio público, via Wikimedia Commons. Ver fonte no Wikimedia Commons (abre em nova aba)
  • Panfletos em alemão

    Textos curtos, baratos e rápidos de imprimir circularam às milhares de cópias. Lutero se tornou o autor mais publicado de sua época.

  • Imagens que argumentam

    Xilogravuras da oficina de Lucas Cranach, como o Passional Christi und Antichristi (1521), traduziam o debate em contrastes visuais para quem lia pouco.

  • Dos dois lados

    Adversários católicos também publicaram respostas, sátiras e catecismos. A guerra de impressos foi um fenômeno de todos os grupos.

Limites desta explicação e fontes

A leitura em voz alta, a pregação e o canto continuaram decisivos: muitos conheceram as ideias reformadoras ouvindo, não lendo.

Área 4 de 7

Política

Igrejas reorganizadas por príncipes, cidades e reis.

  • Igrejas territoriais

    Nos territórios luteranos, os governantes assumiram a organização das igrejas, a fiscalização por visitas e o uso de bens de mosteiros secularizados.

  • Acordos e fronteiras religiosas

    A Paz de Augsburgo (1555) e os tratados de Vestfália (1648) passaram a definir a confissão de cada território, com direito limitado de emigrar.

  • Ideias de resistência

    Teólogos luteranos e reformados escreveram sobre o direito de resistir a governantes injustos, tema retomado em debates políticos posteriores.

Limites desta explicação e fontes

A Reforma não criou a democracia. Em grande parte da Europa, fortaleceu o poder dos governantes sobre a religião, e a tolerância veio depois, por caminhos variados.

Área 5 de 7

Cultura

Línguas, música e imagens ganharam novos usos.

Igreja de Santa Maria (Stadtkirche), em Wittenberg
A Igreja da Cidade de WittenbergIgreja de Santa Maria (Stadtkirche), Wittenberg. Fotografia de Sirleonidas, 2020 (fotografia). CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons. Ver fonte no Wikimedia Commons (abre em nova aba)
  • Línguas escritas

    A Bíblia de Lutero influenciou o alemão escrito; Tyndale e o Livro de Oração Comum marcaram o inglês.

  • Canto congregacional

    Corais luteranos e o Saltério de Genebra (completo em 1562) colocaram o canto na boca da congregação; a tradição desembocou mais tarde em compositores como Bach.

  • Artes visuais e arquitetura

    Em regiões luteranas, retábulos didáticos — como os de Cranach — permaneceram; em igrejas reformadas, imagens foram removidas e o púlpito ganhou centralidade.

Limites desta explicação e fontes

Arte e música religiosas católicas também floresceram no mesmo período, com o barroco. A cultura europeia não se dividiu de forma simples entre os campos.

Área 6 de 7

Sociedade

Família, assistência aos pobres e vocação.

  • Casamento e lar

    O casamento de pastores criou um novo modelo de casa religiosa. Tribunais matrimoniais e consistórios passaram a regular a vida familiar.

  • Assistência

    Cidades reorganizaram a assistência aos pobres em caixas comuns, como a de Leisnig (1523), substituindo parte da esmola dispersa.

  • Vocação

    O trabalho comum passou a ser valorizado como vocação diante de Deus, e não apenas a vida monástica.

Limites desta explicação e fontes

Para muitas mulheres, o fechamento dos conventos eliminou uma das poucas alternativas ao casamento. Historiadores discutem se a Reforma ampliou ou restringiu seu espaço.

Área 7 de 7

Conflitos e contradições

A história também inclui violência, intolerância e textos que causaram dano duradouro.

  • Perseguições

    Anabatistas foram executados em territórios católicos e protestantes. Na Inglaterra, católicos e protestantes morreram conforme o governante de turno; em Genebra, Miguel Servet foi queimado em 1553.

  • Guerras e iconoclasmo

    Guerras de religião atingiram a França, os Países Baixos e o Império. Ondas de destruição de imagens, como a de 1566 nos Países Baixos, apagaram parte do patrimônio artístico.

  • Os escritos antijudaicos de Lutero

    Em 1543, Lutero propôs incendiar sinagogas e expulsar judeus. Séculos depois, esses textos foram explorados pela propaganda nazista. Igrejas luteranas os repudiaram publicamente, como a ELCA em 1994.

Limites desta explicação e fontes

Lembrar a Reforma com seriedade inclui reconhecer essas feridas; várias igrejas protestantes fizeram declarações de arrependimento e diálogo.

Comparação

Depois de Trento: dois caminhos

Um resumo simplificado das posições oficiais em meados do século XVI. Dentro de cada lado havia muitas variações.
Comparação entre igrejas protestantes e a Igreja Católica após o Concílio de Trento
TemaIgrejas protestantesIgreja Católica após Trento
AutoridadeA Escritura como norma suprema, acima de tradições e concílios.Escritura e Tradição recebidas com igual reverência, interpretadas pelo magistério da Igreja.
SacramentosEm geral, dois: batismo e Ceia do Senhor (com divergências sobre a Ceia).Sete sacramentos, reafirmados por Trento.
Língua do cultoLínguas vernáculas na liturgia, nos hinos e na leitura bíblica.Missa em latim, com pregação e catequese nas línguas locais.
CleroPastores podem casar; fim dos votos monásticos.Celibato reafirmado; seminários para formar o clero.
ImagensLuteranos mantiveram muitas; reformados as retiraram das igrejas.Veneração mantida, com orientações contra abusos.

Séculos depois, muitas dessas fronteiras se moveram: o Concílio Vaticano II (1962–1965) autorizou a liturgia nas línguas locais, e o diálogo entre católicos e luteranos levou à Declaração Conjunta sobre a Justificação em 1999.