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Reforma 1517
Reforma 1517

Pessoas, não estátuas: os reformadores

Professores, padres, ex-freiras, tradutores e pregadores. Eles concordavam em algumas coisas, discordavam em muitas e às vezes se perseguiram mutuamente.

Diversidade

Não houve uma única Reforma

Os historiadores falam cada vez mais em “Reformas”, no plural — incluindo a renovação católica que culminou em Trento.

Luterana

Wittenberg, Saxônia, Escandinávia

Lutero, Melanchthon, Katharina von Bora

Justificação pela fé, Confissão de Augsburgo, presença real de Cristo na Ceia, igrejas organizadas com príncipes.

Reformada

Zurique, Genebra, Estrasburgo, Escócia

Zuínglio, Bucer, Calvino, Knox

Culto despojado de imagens, disciplina comunitária, ênfase na soberania de Deus, presbíteros.

Radical e anabatista

Zurique, Morávia, Países Baixos

Conrad Grebel, Menno Simons

Batismo de quem professa a fé, separação entre igreja e governo; em muitos grupos, recusa da violência.

Inglesa

Inglaterra

Tyndale, Cranmer

Ruptura conduzida pela coroa, Livro de Oração Comum, combinação própria de elementos reformados e tradicionais.

Retrato histórico de Martinho Lutero
Retrato de Martinho Lutero (Veste Coburg). Lucas Cranach, o Velho, 1528. Domínio público, via Wikimedia Commons. Ver fonte no Wikimedia Commons (abre em nova aba)
Nascimento
10 de novembro de 1483, Eisleben
Morte
18 de fevereiro de 1546, Eisleben
Atuação
Saxônia eleitoral, Sacro Império
Tradição
Luterana

1483–1546

Martinho Lutero

Martin Luther

Frade agostiniano e professor de teologia em Wittenberg, iniciou a controvérsia das indulgências e se tornou a voz mais conhecida da Reforma alemã.

Filho de uma família ligada à mineração, estudou direito em Erfurt e, em 1505, entrou para o convento agostiniano. Ordenado sacerdote, tornou-se doutor em teologia em 1512 e professor de Bíblia em Wittenberg.

Seus estudos de Salmos, Romanos e Gálatas o levaram a compreender a justiça de Deus como dom recebido pela fé. A partir de 1517, o debate sobre indulgências se transformou em ruptura com Roma: foi excomungado em 1521 e declarado fora da lei pelo Edito de Worms.

Protegido pelo eleitor da Saxônia, passou o resto da vida em Wittenberg, traduzindo a Bíblia, escrevendo catecismos, hinos e tratados, e organizando igrejas evangélicas com príncipes e cidades.

Principais contribuições

  • Tradução da Bíblia para o alemão (Novo Testamento em 1522; Bíblia completa em 1534)
  • Catecismos Menor e Maior (1529), voltados para famílias e pastores
  • Hinos congregacionais, como Castelo forte (Ein feste Burg)
  • Ênfase na justificação pela fé e no sacerdócio de todos os batizados

Controvérsias e diferenças

  • Durante a Guerra dos Camponeses, incentivou a repressão violenta aos revoltosos (1525).
  • Em escritos como Sobre os judeus e suas mentiras (1543), defendeu medidas brutais contra comunidades judaicas. Igrejas luteranas repudiaram publicamente esses textos, como a ELCA em 1994.
  • Usou linguagem extremamente agressiva contra o papado, anabatistas e adversários protestantes.

Relações com outros movimentos

  • Divergiu de Zuínglio sobre a presença de Cristo na Ceia (Marburgo, 1529).
  • Debateu com Erasmo sobre o livre-arbítrio (1524–1525).
  • Trabalhou durante décadas ao lado de Filipe Melanchthon.
Retrato histórico de Filipe Melanchthon
Retrato de Filipe Melanchthon (Gemäldegalerie Alte Meister, Kassel). Oficina de Lucas Cranach, o Velho, 1543. Domínio público, via Wikimedia Commons. Ver fonte no Wikimedia Commons (abre em nova aba)
Nascimento
16 de fevereiro de 1497, Bretten
Morte
19 de abril de 1560, Wittenberg
Atuação
Wittenberg, Saxônia
Tradição
Luterana

1497–1560

Filipe Melanchthon

Philipp Melanchthon

Humanista e professor de grego, foi o principal colaborador de Lutero, autor da Confissão de Augsburgo e reformador da educação.

Sobrinho-neto do hebraísta Johannes Reuchlin, chegou a Wittenberg em 1518, aos 21 anos, para ensinar grego. Seu nome é a forma grega de Schwartzerdt, “terra negra”.

Em 1521 publicou os Loci communes, primeira exposição sistemática da teologia evangélica. Redigiu a Confissão de Augsburgo (1530) e sua Apologia.

Organizou escolas e currículos universitários em vários territórios, o que lhe rendeu o título de Praeceptor Germaniae (mestre da Alemanha).

Principais contribuições

  • Confissão de Augsburgo (1530), base confessional luterana
  • Loci communes (1521), primeiro manual de teologia evangélica
  • Reforma de escolas e universidades protestantes

Controvérsias e diferenças

  • Após a derrota protestante de 1547, aceitou acordos (os Interins) considerados excessivos por luteranos mais rígidos, o que gerou longas disputas internas.
  • Sua compreensão da Ceia aproximou-se em alguns pontos da posição reformada, provocando acusações de infidelidade a Lutero.

Relações com outros movimentos

  • Correspondeu-se com Calvino e com reformadores suíços.
  • Buscou diálogo com teólogos católicos em colóquios religiosos.
Retrato histórico de Ulrico Zuínglio
Retrato de Ulrico Zuínglio. Hans Asper, c. 1531. Domínio público, via Wikimedia Commons. Ver fonte no Wikimedia Commons (abre em nova aba)
Nascimento
1º de janeiro de 1484, Wildhaus (Toggenburg)
Morte
11 de outubro de 1531, Kappel am Albis
Atuação
Zurique, Confederação Suíça
Tradição
Reformada

1484–1531

Ulrico Zuínglio

Huldrych Zwingli

Sacerdote humanista que conduziu a reforma de Zurique em parceria com o conselho da cidade e deu origem à vertente reformada suíça.

Formado em Viena e Basileia, foi pároco em Glarus e Einsiedeln e capelão de tropas mercenárias suíças, experiência que o tornou crítico do serviço mercenário.

Na Grossmünster de Zurique, a partir de 1519, pregou continuamente as Escrituras. As disputas de 1523 levaram o conselho a adotar a pregação bíblica, a remover imagens das igrejas e a substituir a missa por uma celebração da Ceia em 1525.

Morreu como capelão das tropas de Zurique na batalha de Kappel, contra cantões católicos.

Principais contribuições

  • Modelo de reforma conduzida por um governo municipal
  • Compreensão da Ceia como memorial e confissão de fé da comunidade
  • Base da tradição reformada, continuada por Heinrich Bullinger

Controvérsias e diferenças

  • Zurique perseguiu os anabatistas; Félix Manz foi afogado em 1527 por ordem do conselho.
  • Associou a reforma religiosa a alianças militares entre cantões, que culminaram em guerra.

Relações com outros movimentos

  • Não chegou a acordo com Lutero sobre a Ceia em Marburgo (1529).
  • Antigos discípulos, como Conrad Grebel, romperam com ele e iniciaram o anabatismo.
Retrato histórico de João Calvino
Retrato de João Calvino (Museum Catharijneconvent, Utrecht). Autor anônimo, França, c. 1550. Domínio público, via Wikimedia Commons. Ver fonte no Wikimedia Commons (abre em nova aba)
Nascimento
10 de julho de 1509, Noyon (Picardia)
Morte
27 de maio de 1564, Genebra
Atuação
Genebra; antes, França e Estrasburgo
Tradição
Reformada

1509–1564

João Calvino

Jean Calvin

Jurista e teólogo francês exilado, autor das Institutas e organizador da igreja de Genebra, que se tornou centro do protestantismo reformado internacional.

Estudou direito e letras clássicas em Orléans, Bourges e Paris. Aderiu às ideias evangélicas no início da década de 1530 e deixou a França após a repressão de 1534.

Publicou a Instituição da Religião Cristã em 1536, ampliada até a edição de 1559. Chegou a Genebra em 1536, foi expulso em 1538, viveu em Estrasburgo junto a Martin Bucer e voltou em 1541.

Em Genebra, organizou a igreja, pregou e comentou quase toda a Bíblia, e fundou em 1559 a Academia, que formou pastores enviados para vários países.

Principais contribuições

  • As Institutas, principal síntese da teologia reformada
  • Comentários bíblicos e organização de ministérios: pastores, doutores, presbíteros e diáconos
  • Rede internacional de igrejas reformadas, especialmente na França

Controvérsias e diferenças

  • Teve papel decisivo no processo que levou à execução do antitrinitário Miguel Servet em Genebra (1553).
  • A disciplina moral do Consistório gerou resistência de parte da população.
  • A doutrina da predestinação provocou debates dentro e fora da tradição reformada.

Relações com outros movimentos

  • Firmou com Bullinger o Consenso de Zurique sobre a Ceia (1549).
  • Influenciou John Knox e as igrejas reformadas da Escócia, dos Países Baixos e da França.
Retrato histórico de Katharina von Bora
Retrato de Katharina von Bora (Veste Coburg). Lucas Cranach, o Velho, 1528. Domínio público, via Wikimedia Commons. Ver fonte no Wikimedia Commons (abre em nova aba)
Nascimento
29 de janeiro de 1499 (local discutido)
Morte
20 de dezembro de 1552, Torgau
Atuação
Wittenberg, Saxônia
Tradição
Luterana

1499–1552

Katharina von Bora

Ex-freira que se casou com Lutero e administrou uma das casas mais movimentadas da Reforma, tornando-se referência do lar pastoral protestante.

De família nobre empobrecida, foi educada em conventos e professou como freira cisterciense em Nimbschen. Em 1523, fugiu com outras freiras com a ajuda do comerciante Leonhard Koppe.

Casou-se com Lutero em 13 de junho de 1525. Administrou o antigo mosteiro agostiniano onde viviam a família, estudantes e hóspedes, além de hortas, criação de animais, uma cervejaria e terras.

Viúva em 1546, enfrentou dificuldades financeiras e fugas causadas por guerras e epidemias. Morreu em Torgau, após um acidente durante viagem.

Principais contribuições

  • Gestão econômica que sustentou a casa e o trabalho de Lutero
  • Modelo histórico do casamento pastoral protestante

Controvérsias e diferenças

  • Detalhes da fuga do convento — como a tradição de que as freiras se esconderam em barris — vêm de relatos posteriores e não são todos verificáveis.
  • Recebeu críticas de contemporâneos pelo papel ativo na administração doméstica e financeira, incomum para a época.

Relações com outros movimentos

  • Lutero a chamava, entre outros apelidos, de “meu senhor Katie”, segundo suas cartas.
Retrato histórico de Menno Simons
Retrato de Menno Simons (gravura). Christoffel van Sichem, 1610. Domínio público, via Wikimedia Commons. Ver fonte no Wikimedia Commons (abre em nova aba)
Nascimento
1496, Witmarsum (Frísia)
Morte
31 de janeiro de 1561, Wüstenfelde (Holstein)
Atuação
Frísia, Países Baixos e norte da Alemanha
Tradição
Anabatista (menonita)

1496–1561

Menno Simons

Ex-sacerdote católico que reorganizou comunidades anabatistas pacíficas após Münster; os menonitas recebem o nome dele.

Ordenado sacerdote em 1524, passou a duvidar da presença real na missa e do batismo de crianças após ler o Novo Testamento.

A violência ligada aos anabatistas radicais em 1535 o abalou. Em janeiro de 1536 deixou o sacerdócio e passou a liderar grupos anabatistas que rejeitavam o uso da espada.

Viveu mais de vinte anos como fugitivo, com recompensa oferecida por sua captura, escrevendo e visitando comunidades.

Principais contribuições

  • Organização de igrejas anabatistas pacifistas nos Países Baixos e no norte da Alemanha
  • Escritos sobre discipulado, batismo de crentes e separação entre Igreja e governo

Controvérsias e diferenças

  • Defendeu uma disciplina eclesiástica rigorosa, incluindo o afastamento social de membros excluídos, o que dividiu comunidades.
  • Sua cristologia (sobre a carne de Cristo) foi contestada por outros teólogos.

Relações com outros movimentos

  • Perseguido por autoridades católicas e protestantes.
  • Representa uma Reforma distinta da luterana e da reformada.
Retrato histórico de William Tyndale
William Tyndale, nas Icones de Teodoro de Beza. Teodoro de Beza (org.); fac-símile de C. G. McCrie, 1580 (fac-símile de 1906). Domínio público, via Wikimedia Commons. Ver fonte no Wikimedia Commons (abre em nova aba)
Nascimento
c. 1494, Gloucestershire
Morte
6 de outubro de 1536, Vilvoorde
Atuação
Inglaterra e exílio no continente
Tradição
Reforma inglesa

c. 1494–1536

William Tyndale

Erudito e tradutor que levou o Novo Testamento ao inglês a partir do grego, trabalhando no exílio e morrendo executado por heresia.

Estudou em Oxford e possivelmente em Cambridge. Sem apoio para traduzir a Bíblia na Inglaterra, partiu para o continente em 1524.

Seu Novo Testamento, impresso em Worms em 1526, entrou clandestinamente na Inglaterra. Traduziu também o Pentateuco (1530) e outros livros do Antigo Testamento a partir do hebraico.

Traído em Antuérpia em 1535, foi condenado e executado perto de Bruxelas.

Principais contribuições

  • Primeiro Novo Testamento impresso em inglês traduzido diretamente do grego
  • Linguagem que marcou a Bíblia inglesa, inclusive a Versão do Rei Jaime (1611)

Controvérsias e diferenças

  • Travou dura polêmica escrita com Thomas More.
  • Opôs-se à anulação do casamento de Henrique VIII, o que lhe tirou apoio da corte.

Relações com outros movimentos

  • Leu e adaptou textos de Lutero em seus prefácios.
  • Sua obra foi incorporada por Miles Coverdale e outros tradutores.
Retrato histórico de Martin Bucer
Retrato de Martin Bucer (desenho). Jacques de Boucq, c. 1570. Domínio público, via Wikimedia Commons. Ver fonte no Wikimedia Commons (abre em nova aba)
Nascimento
11 de novembro de 1491, Sélestat (Alsácia)
Morte
28 de fevereiro de 1551, Cambridge
Atuação
Estrasburgo; depois Inglaterra
Tradição
Reformada (mediadora)

1491–1551

Martin Bucer

Ex-dominicano que reformou Estrasburgo e passou a vida tentando reconciliar luteranos, reformados e, por vezes, católicos.

Conheceu Lutero na disputa de Heidelberg (1518). A partir de 1523 liderou a reforma de Estrasburgo, cidade imperial que acolheu refugiados religiosos.

Recebeu Calvino entre 1538 e 1541. Exilado após o Interim de Augsburgo, tornou-se professor em Cambridge em 1549.

Principais contribuições

  • Concórdia de Wittenberg (1536) entre luteranos e teólogos do sul da Alemanha
  • Reflexão sobre disciplina, diaconia e confirmação que influenciou Calvino e a Igreja da Inglaterra

Controvérsias e diferenças

  • Sua busca de fórmulas de acordo foi vista por críticos como ambígua.
  • Sob Maria I, seus restos mortais foram exumados e queimados (1557).

Relações com outros movimentos

  • Ponte entre Wittenberg, Zurique, Genebra e Cambridge.
Retrato histórico de Thomas Cranmer
Retrato de Thomas Cranmer. Gerlach Flicke, 1545. Domínio público, via Wikimedia Commons. Ver fonte no Wikimedia Commons (abre em nova aba)
Nascimento
2 de julho de 1489, Aslockton
Morte
21 de março de 1556, Oxford
Atuação
Inglaterra
Tradição
Anglicana

1489–1556

Thomas Cranmer

Arcebispo de Cantuária sob Henrique VIII e Eduardo VI, responsável pelo Livro de Oração Comum.

Professor em Cambridge, apoiou a anulação do casamento de Henrique VIII e tornou-se arcebispo em 1533.

Sob Eduardo VI, conduziu reformas litúrgicas e doutrinárias: Livros de Oração Comum de 1549 e 1552 e os Quarenta e Dois Artigos (1553).

Com a restauração católica de Maria I, foi condenado. Assinou retratações, mas as renegou publicamente antes de morrer na fogueira.

Principais contribuições

  • Livro de Oração Comum, liturgia em inglês
  • Base doutrinária para os posteriores Trinta e Nove Artigos

Controvérsias e diferenças

  • Serviu a uma política real de reforma marcada por execuções de católicos e de protestantes dissidentes.

Relações com outros movimentos

  • Manteve contato com Bucer, Pedro Mártir Vermigli e reformadores continentais.
Retrato histórico de John Knox
John Knox, nas Icones de Teodoro de Beza. Teodoro de Beza (org.), 1580. Domínio público, via Wikimedia Commons. Ver fonte no Wikimedia Commons (abre em nova aba)
Nascimento
c. 1514, Haddington (Escócia)
Morte
24 de novembro de 1572, Edimburgo
Atuação
Escócia, Inglaterra e Genebra
Tradição
Reformada (presbiteriana)

c. 1514–1572

John Knox

Pregador escocês, ex-prisioneiro das galés francesas e exilado em Genebra, figura central da Reforma escocesa de 1560.

Capturado após o cerco de St Andrews (1547), remou em galés francesas por cerca de dezenove meses. Depois atuou na Inglaterra de Eduardo VI.

Exilado sob Maria I, pastoreou refugiados ingleses em Genebra. Voltou à Escócia em 1559 e participou da redação da Confissão Escocesa (1560).

Principais contribuições

  • Confissão Escocesa e Primeiro Livro de Disciplina
  • Fundamentos da Igreja presbiteriana escocesa

Controvérsias e diferenças

  • Seu panfleto contra o governo de rainhas (1558) ofendeu inclusive governantes protestantes, como Elizabeth I.
  • Confrontou duramente Maria Stuart, rainha da Escócia.

Relações com outros movimentos

  • Discípulo e admirador de Calvino; ligado à Genebra reformada.